quarta-feira, 7 de março de 2012

Almas Afins





" O Homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera." Carl Gustav Jung






Consegui reter-me um pouco da azáfama  que tem sido estes dias, graças a Deus, para escrever o tema desta semana do blog com um pouco de atraso. Preferi  atrasar a escritura a escrever a toque de caixa, pois o assunto que flutua em meu psiquismo pede delicadeza no fiar e a delicadeza não combina com pressa e arremates. 

Venho pensando, há dias, escrever sobre almas afins e o apego excessivo a alguém que tanto sofrimento pode causar, sobremaneira a quem retém a afetividade dessa forma exclusivista e doentia.

A abordagem desse assunto dar-se-á à luz dos ensinamentos espíritas, que muito ajudam a esclarecer e a refletir  sobre a questão. Não é fácil falar disso, porque, como já alertou Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, " coração da gente - o escuro, escuros."





Nós, espíritos, em nossa caminhada nas diversas existências, devido às leis da afinidade, poderemos localizar nosso afeto em algumas pessoas. É uma escolha afetiva que se constrói ao longo das diversas experiências e que se  entrelaça pelos fios dos compromissos assumidos e nas vivências em comum na poeira do tempo. 

A noção não é de almas gemelares, criadas ao mesmo tempo e partidas, mas de almas simpáticas, que se escolheram. Não há exatamente como mensurar  o caráter dessa escolha, o que faz alguém ficar para sempre assinalado nas fimbrias mais íntimas de nossa alma. 

Allan Kardec, no livro dos Espíritos, assim aborda a questão:


298. As almas que devam unir-se estão, desde suas origens, predestinadas a essa união e cada um de nós tem, nalguma parte do Universo, sua metade, a que fatalmente um dia reunirá?
 
“Não; não há união particular e fatal, de duas almas. A união que há é a de todos os Espíritos, mas em graus diversos, segundo a categoria que ocupam, isto é, segundo a perfeição que tenham adquirido. Quanto mais perfeitos, tanto mais unidos. Da discórdia nascem todos os males dos humanos; da concórdia resulta a completa felicidade.”

299. Em que sentido se deve entender a palavra metade, de que alguns Espíritos se servem para designar os Espíritos simpáticos?
 
“A expressão é inexata. Se um Espírito fosse a metade do outro, separados os dois, estariam ambos incompletos.”
 




Emmanuel, no livro  "O Consolador",   no item 323, página 256, através da mediunidade de Francisco  Cândido Xavier, assim  explica:

" No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade. Criadas umas para as outras, as almas gêmeas se buscam, sempre que separadas. A união perene é-lhes a aspiração suprema e indefinível. Milhares de seres, se transviados no crime ou na inconsciência, experimentaram a separação das almas que os sustentam, como a provação mais ríspida e dolorosa, e, no drama das existências mais obscuras, vemos sempre a atração eterna das almas que se amam mais intimamente, envolvendo umas para as outras num turbilhão de ansiedades angustiosas; atração que é superior a todas as expressões convencionais da vida terrestre. Quando se encontram no acervo real para os seus corações – a da ventura de sua união pela qual não trocariam todos os impérios do mundo, e a única amargura que lhes empana a alegria é a perspectiva de uma nova separação pela morte, perspectiva essa que a luz da Nova Revelação veio dissipar, descerrando para todos os espíritos, amantes do bem e da verdade, os horizontes eternos da vida."

Emmanuel, quando usa a expressão alma gêmea é no sentido de almas simpáticas e, realmente, isso acontece. Se é fato que temos nossa alma afim, é certo que nem sempre, nas experiências aqui na Terra, poderemos caminhar ao lado delas. Como cada pessoa é uma individualidade, não raro, devido às próprias escolhas e condutas pretéritas, poder-se-á passar por reencarnações em experiências diversas devido a necessidades diferentes de reajuste e aprendizagem. Não evoluem juntas exatamente as almas afins, pois cada pessoa deve tecer por si mesma seu processo de luarização.





 Podem até mesmo se reencontrar no mesmo caminhar, mas  impossibilitadas de se unirem, por estarem inscritas em provas diversas e com  diferentes necessidades individuais de se realinharem às Leis Divinas. E o que se sente? Saudade, sensação de incompletude. 

Quando isso acontece, sobremaneira ao se assumir compromissos com outras pessoas e situações, há de se atentar para a necessidade de conduzir a afetividade alinhada ao dever e ao respeito aos corações que se aproximaram de nós, sob pena de se incorrer em desajustes maiores. 

É certo que é uma grande prova reencontrar  um afeto dessa dimensão e não poder entrelaçar as mãos às suas, mas importa entender a brevidade da existência terrena e seus significados para nós, espíritos ainda pequeninos e necessitados de oportunidades  redentoras.

Na escola redentora da Terra, uma alma afim pode evoluir, avançar moralmente antes da outra, a exemplo de Célia Lucius e Ciro, no majestoso romance  de Emmanuel "50 Anos Depois", que integra a série de romances históricos desse excelente instrutor espiritual nosso, por meio da mediunidade de Chico Xavier




Ciro é o espírito escolhido da nobre Célia, mas larga é a distância moral entre eles e Célia, amorosa, funciona como uma espécie de anjo tutelar de Ciro, reencontrando-o e acolhendo-o em seus braços mais de uma vez e assumindo dores em nome desse amor, a fim de ajudá-lo em sua ascese. Estes mesmos espíritos se reencontrarão novamente, em outra experiência de reajustamento no romance  " Renúncia", também psicografado por Chico Xavier, e de autoria de Emmanuel.

Na história, a numinosa entidade espiritual Alcione, desce da esfera superior onde vivia, a fim de auxiliar novamente sua alma gêmea, Pólux. A história de Alcione e Pólux é um belo e significativo exemplo de Espíritos moralmente distanciados um do outro, mas que, por se amarem indelevelmente, permanecem ligados. É de se ler tais obras, a fim de se aprender e melhorar nossa capacidade de viver a potência do afeto.

Todavia, poderemos passar várias experiências  sem esta alma querida e naturalmente nos consorciar a outras com quem adquirimos vínculos no passado. Uma união afetiva pode se dar apenas pela necessidade de se cumprir uma programação  de realinhamento às Leis de Deus. Nesse caso, são as afinidades pelos desajustes que criam a necessidade de se tecer a trama de amor por meio da construção do afeto.  O amor, então, está para ser conquistado, tecido. Eu diria que grande parte das uniões hoje sejam dessa estirpe. 


 

Esses ensinamentos servem para que reflitamos na forma como nos ligamos às pessoas. Muitas vezes, não é o amor em si, mas apenas sintoma de nossas patologias e conflitos existenciais. Não é o reencontro feliz, mas a sintonia desajustada.

 Desejosos dessa união plena, nos deixamos levar pelos devaneios e nos ligamos a pessoas com quem temos afinidade apenas na sombra, no desequilíbrio. Não nos permitimos ficar um pouco sozinhos, ou mesmo vivenciar a afetividade em outras dimensões. O que é natural, pois necessitamos de afeto. Porém,  o medo de ficar só pode nos conduzir a relações mórbidas e sofridas e  a construir vinculações desnecessárias, que não estavam  em nosso script como espíritos reencarnantes. 


 

Dessa forma, ao invés de sairmos em busca dessa alma afim, devemos buscar nos autoconhecer e realizar a reforma íntima no locus onde estivermos inscritos. Observemos os significantes que a vida nos aponta. O que preciso aprender,  o que preciso melhorar em mim? Mais, qual tem sido o padrão repetido por mim nas escolhas afetivas?

Isso porque posso perfeitamente nesta existência não estar ao lado da minha alma querida, mas ter comigo alguém que é bom companheiro, com quem possuo afinidades de ideais e com quem posso ser feliz, consciente dos meus deveres e realizações na impermanência das ocorrências terrenas, se souber escolher com maturidade e não sob o impulso do imediato, das paixões desarticuladoras .

Mais importante do que estar vivendo aqui na Terra ao lado da alma simpática à nossa, é construir em nosso trajeto existencial uma vida de afinidade aos ensinamentos Crísticos, cujo pressuposto basilar é:  " Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo." Assim, toda humanidade deve ser nossa alma gêmea e nossa afetividade ter a dimensão do universo inteiro e não apenas circunscrita a uma ou duas pessoas.

Nane











Referências:

O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, itens 298, 299 e 303.   
O Consolador, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, questões 323 e 325, e Nota na pág. 233.
Renúncia, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, 4.a edição, págs. 15 e 25.















 





3 comentários:

EXPOSITOR ESPÍRITA BRUNO TAVARES disse...

Nane, sem palavras para comentar um artigo tão sensível e maravilhoso... Apenas quero dizer que ele é belíssimo, como belíssima é a tua alma! Muita paz, irmãzinha! Bruno Tavares

Nane Mendonça disse...

Obrigada, amigo!

Tábata Lopes disse...

Lindo mesmo Nane, perfeito! A nossa felicidade não está nas mãos do outro pq este outro pode nem estar aqui agora. Nós fomos criados inteiros e não metades e necessitamos não só do outro mas dos outros que contribuem para a nossa evolução sejam eles afetos ou desafetos!